TGO e TGP em Cães e Gatos: Guia Completo para Veterinários sobre Exames Hepáticos e Interpretação de Resultados
No universo da medicina veterinária, a avaliação da saúde hepática é um pilar fundamental para o diagnóstico e manejo de diversas patologias em cães e gatos.
Entre os exames mais solicitados e cruciais para essa análise, destacam-se as dosagens das enzimas hepáticas transaminase glutâmico-oxalacética (TGO), também conhecida como aspartato aminotransferase (AST), e transaminase glutâmico-pirúvica (TGP), ou alanina aminotransferase (ALT).
Compreender o que significam esses marcadores, como interpretá-los e qual a sua relevância clínica é essencial para todo médico veterinário que busca oferecer um diagnóstico preciso e um tratamento eficaz aos seus pacientes.
Este artigo tem como objetivo aprofundar o conhecimento sobre TGO e TGP, abordando sua fisiologia, interpretação de resultados e a importância de um diagnóstico laboratorial de qualidade.
O que são TGO (AST) e TGP (ALT)?
As enzimas TGO (AST) e TGP (ALT) são aminotransferases, proteínas que desempenham um papel vital no metabolismo dos aminoácidos. Embora ambas sejam indicadores de lesão celular, suas localizações e especificidades variam, o que as torna complementares na avaliação hepática:
TGP (ALT – Alanina Aminotransferase)
É considerada a enzima mais específica para o fígado em cães e gatos. Sua concentração é predominantemente citoplasmática dos hepatócitos.
Um aumento nos níveis séricos de TGP geralmente indica lesão hepatocelular, seja ela aguda ou crônica, resultando no extravasamento da enzima para a corrente sanguínea.
Em gatos, qualquer elevação da TGP é clinicamente significativa devido à sua meia-vida sérica relativamente curta
TGO (AST – Aspartato Aminotransferase)
Embora presente em alta concentração no fígado, a TGO é menos específica que a TGP, pois também é encontrada em outros tecidos, como músculo esquelético, miocárdio e eritrócitos.
A TGO está presente tanto no citoplasma quanto nas mitocôndrias das células. Um aumento nos níveis de TGO, especialmente quando acompanhado por elevações na creatina quinase (CK), pode sugerir uma origem muscular.
No entanto, quando a elevação é de origem hepática, pode indicar uma lesão celular mais profunda ou grave
Interpretação dos Resultados: Além dos Números
A interpretação dos resultados de TGO e TGP requer uma análise cuidadosa, considerando não apenas os valores absolutos, mas também o histórico clínico do paciente, outros exames laboratoriais e a espécie animal:
Grau de Elevação
Aumentos leves (2-3 vezes o limite superior da normalidade) podem indicar lesões menos severas ou processos crônicos.
Elevações mais significativas (acima de 10 vezes o normal) geralmente apontam para lesões agudas e graves, como necrose hepática extensa. Em gatos, mesmo pequenas elevações de TGP devem ser investigadas com atenção.
Relação TGO/TGP
Embora não seja um indicador definitivo, a relação entre TGO e TGP pode fornecer pistas adicionais. Em lesões hepáticas agudas, a TGP tende a se elevar mais rapidamente e em maior proporção que a TGO.
Em lesões crônicas ou mais graves, a TGO pode se tornar proporcionalmente mais elevada, especialmente se houver dano mitocondrial.
Outros Marcadores Hepáticos
A avaliação conjunta com outros marcadores, como fosfatase alcalina (FA), gama-glutamil transferase (GGT), bilirrubina, albumina e ácidos biliares, é crucial para uma compreensão completa da função hepática e para diferenciar entre colestase, lesão hepatocelular e insuficiência hepática
Causas Comuns de Elevação de TGO e TGP
Diversas condições podem levar ao aumento das enzimas hepáticas em cães e gatos. As mais comuns incluem:
- Doenças Hepáticas: Hepatites (infecciosas, tóxicas, imunomediadas), lipidose hepática (especialmente em gatos), cirrose, colangite/colangio-hepatite, neoplasias hepáticas primárias ou metastáticas.
- Toxinas e Medicamentos: Ingestão de substâncias hepatotóxicas (ex: xilitol, algumas plantas, medicamentos como paracetamol em gatos) ou reações adversas a fármacos.
- Doenças Sistêmicas: Pancreatite, doenças inflamatórias intestinais, doenças endócrinas (ex: hiperadrenocorticismo), sepse, doenças cardíacas congestivas.
- Trauma ou Hipóxia: Lesões traumáticas no fígado ou condições que levam à hipóxia hepática.
- Condições Musculares: Como a TGO também está presente em músculos, lesões musculares severas (trauma, miopatias) podem elevar seus níveis.
Perguntas Frequentes sobre TGO e TGP em Cães e Gatos
1. Qual a diferença principal entre TGO e TGP na avaliação hepática?
A TGP (ALT) é mais específica para lesão hepatocelular em cães e gatos, enquanto a TGO (AST) é menos específica, sendo encontrada também em músculos e outros tecidos. A elevação da TGP é um indicador mais direto de dano ao fígado.
2. Um TGP elevado sempre indica doença hepática grave?
Não necessariamente. A elevação da TGP indica lesão hepatocelular, mas a gravidade da doença depende do grau de elevação, da duração, da presença de outros sinais clínicos e de outros exames. Aumentos leves podem ser transitórios ou indicar condições menos graves, enquanto aumentos muito altos sugerem lesões mais extensas.
3. Por que a TGO pode estar elevada sem que haja problema no fígado?
Como a TGO (AST) está presente em outros tecidos além do fígado, como músculos e coração, sua elevação pode ser decorrente de lesões nesses órgãos. Por isso, é importante avaliar a TGO em conjunto com a TGP e, se necessário, com a creatina quinase (CK) para diferenciar a origem da elevação.
4. Gatos com TGP elevada são mais preocupantes que cães?
Sim. Em gatos, a meia-vida da TGP é muito curta, o que significa que qualquer elevação, mesmo que discreta, é um indicativo mais forte de lesão hepática ativa e deve ser investigada prontamente.
5. Quais exames complementares são recomendados quando TGO e TGP estão alterados?
Além de um hemograma completo e perfil bioquímico estendido (incluindo FA, GGT, bilirrubina, albumina, glicose, ureia, creatinina), exames como ultrassonografia abdominal, ácidos biliares pré e pós-prandiais, coagulograma e, em alguns casos, biópsia hepática, podem ser necessários para um diagnóstico definitivo.
6. É possível que o animal não apresente sintomas, mas tenha TGO/TGP alterados?
Sim, é possível. Em fases iniciais de algumas doenças hepáticas, os animais podem ser assintomáticos. Por isso, exames de rotina e check-ups são importantes para a detecção precoce de alterações e intervenção antes que a doença progrida.
Conclusão
A interpretação das enzimas TGO e TGP é uma ferramenta diagnóstica indispensável na rotina do médico veterinário.
No entanto, a complexidade das patologias hepáticas exige não apenas o conhecimento técnico aprofundado, mas também o suporte de um laboratório de diagnóstico veterinário confiável e com expertise.
A precisão nos resultados e a agilidade na entrega são cruciais para a tomada de decisões clínicas que impactam diretamente a saúde e o bem-estar dos pacientes.
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